"(...) Linguajar e pensamento americanizado / Da Vince diz O Código pro Crepúsculo acontecer / A Lua Nova anuncia que o caçador de pipas foi caçado / Na Cidade da tua mente o Sol não vai nascer".
Os números são alarmantes! Por ano, milhões de livros são escritos, vendidos, comprados e lidos no mundo inteiro. Editoras renomadas, selos independentes... A produção editorial é gigantesca e cada vez maior. O que parece ótimo, afinal, muita gente tem lido mais. Ou não.
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O grande problema não é ter acesso aos livros. E sim, a que tipo de livros se tem acesso.
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Há pouco tempo atrás, mais ou menos na mesma época de "Harry Potter" e "O senhor dos anéis", Dan Brown foi o nome mais aclamado em termos de Best Sellers. O livro "O código da Vince", no ano de estréia, foi mais vendido que a Bíblia.
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Em seguida, surgiram os títulos "O Caçador de Pipas", "A menina que roubava livros", "O menino do pijama listrado" e hoje, a nova febre chama-se "Crepúsculo" ou, no original, "Twilight" da escritora estadunidense Stephenie Meyer.
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Trata-se de um livro com inegável qualidade de edição. Excelente acabamento, papel de primeira... De tão bonito, dá vontade de comer o exemplar! Mas, para um estudante de Letras como eu, que se diz escritor, as perguntas são inevitáveis: Isso é literatura? Com que propósito se investe tanto na editoração de livros desse tipo?
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O fato é que descobriram que a arte literária pode se tornar um objeto meramente comercial, se reduzida de sua essência. Histórias emocionantes, casos de amor bonitinhos escritos sob encomenda rendem, aos editores, cifras incalculáveis. Foi-se o tempo em que quem escrevia denunciava, criticava e refletia de maneira responsável sobre a sociedade, o homem, a vida e seus paradigmas... Não há sentimento artístico nos escritores que fascinam essa geração.
Pior que isso é a reação do público. De modo geral, e isso com raras exceções, os apreciadores desses livros comerciais (que na maioria das vezes viram filme, com a intenção de gerar ainda mais lucro) ignoram Machado de Assis ou desconhecem a profundidade da obra de Clarice Lispector, por exemplo. Gastar uma semana (ou um dia que seja) com um livro que no máximo me serve de passa-tempo é, no mínimo, falta de bom senso!
O livro "O menino do pijama listrado" é uma ficção que tem como cenário os campos de concentração Nazista. Duvido muito que o grande número de leitores desse livro chegou a ler um único exemplar de história ou estudou algo sobre o holocausto. Duvido que o grande público de "O caçador de pipas" se preocupa em estudar a história do povo afegão de modo geral. Duvido muito que quem lê "O doce veneno do escorpião" (outro sucesso em vendas), tem 'saco' para estudar políticas públicas visando compreender os problemas de prostituição num país como o nosso.
É preciso olhar essas coisas com olhos críticos. Enquanto engolimos essas histórias bem escritas, envolventes e cativantes, mas carregadas de superficialidade e desprovidas de qualquer sentido ou intento artístico, perdemos a oportunidade de crescer intelectualmente através de livros com conteúdo e sentimento verdadeiramente literários, e não só comerciais.
Um livro que não muda, ou que ao menos não se preocupa em mudar o ponto de vista, a concepção ou a percepção do leitor sobre determinado tema, um livro que não acrescenta ao intelecto, que não estimula a razão e o senso crítico, um livro que não mostra ao leitor novos caminhos e horizontes intelectuais, um livro que simplesmente emociona e toma tempo e dinheiro das pessoas não é digno de ser lido.
Para um contraste, deixo aqui algumas dicas para quem quiser comparar os “mais vendidos” com o que de fato é literatura:
- “Memórias póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis
- “Demian” de Hermman Hesse
- “Crime e Castigo” de Dostoiévski
- “A hora da estrela” de Clarice Lispector
- “Cem anos de solidão” de Gabriel Garcia Márquez
- “Noites do Sertão” de João Guimarães Rosa
- “Vidas secas” de Graciliano Ramos
- “O grande mentecapto” de Fernando Sabino
Outras tantas obras maravilhosas foram e são escritas para, entre outras coisas, não deixar a arte ser sufocada pelo comércio, pelo superficialismo e pela indiferença pós-moderna capitalista.
Vale lembrar, amigos, que pensar não é pecado. Deixar que os outros pensem por nós, é.
Boa leitura!
